TRIBOS

Arnaldo Celso do Carmo - 12/2006

Observando as pessoas à minha volta notei que podemos reconhecer três grupos distintos.
Eles se diferenciam pela atitude interior dos seus componentes
embora haja uma predominância de uma certa faixa etária em cada um deles.
No primeiro grupo, que chamarei de cumpridores, está a maioria dos nossos pais, avós, bisavós...

Os cumpridores são aqueles que seguem as regras simplesmente porque é assim que se deve fazer.

Suas atitudes são inspiradas principalmente pelo medo: medo de errar, de ser inadequado, de não ser amado,
de "não dar certo na vida", de não ser reconhecido, e uma infinidade de outros.
Porisso têm atravessado os séculos repetindo, com pouquíssimas adaptações, o que aprenderam com os que vieram antes deles. As muitas dúvidas que surgem pelo caminho são vistas como "pequenos desconfortos que fazem parte da vida"
e prontamente afastadas. Vivem segundo as normas, fazem o que se espera deles e representam ainda o
grupo mais numeroso entre nós, com gente de todas as idades.
Suas convicções estão expressas na arte e na literatura que produziram e ainda produzem abundantemente.

O grupo que se segue, dos que desconfiaram que seguir regras não podia ser tudo o que há
e intuiram a existência de muito mais, pode ser chamado de buscadores.

Boa parte deles faz parte da minha geração.
Eles contestam, discutem, viram a mesa e vão à luta. Acreditam que não é possível que viver se resuma
às pequenas opções da maioria dos seus antepassados. Têm que romper os limites, livrar-se das armadilhas, saltar, voar.
Uma vaga noção de liberdade é a única luzinha, muito tênue, que ilumina o seu caminho.
Experimentam muitas vitórias e muitas derrotas; muito sofrimento, mas muita alegria também.
A tensão e inquietude produzidas pela busca contínua liberam uma enorme quantidade de energia criativa que se expressa na forma de obras de arte: música, literatura, arquitetura, cinema, grafites e muitas outras manifestações.

Jamais se sentiu tanta excitação, tanto tesão. A adrenalina sobe como nunca e... muitas vezes os captura!
Acabam por apaixonar-se pelos seus papéis, esquecem-se do que buscavam e já não se importam mais com encontrar.
Ficam viciados em buscar. O que antes era apenas um meio, torna-se um fim sem propósito.
Passam a ser cumpridores das novas regras dos buscadores.
Querem buscar, e é exatamente isso o que fazem: buscam... nada mais!

Mas nem todos ficam presos na teia sutil do inconformismo e da rebeldia.
Muitos seguem a trilha até o fim e experimentam as consequências de chegar a algum lugar.
E uma grande transformação acontece em suas vidas. Não por algum golpe de sorte ou alguma irmandade secreta
que se revele repentinamente e indique a direção a seguir. É bem mais simples!

Tudo fica claro quando começam a se dar conta de que estavam procurando no lugar errado!
Como buscadores, acreditavam que a verdade estava lá fora, em algum lugar longe daqui.
Achavam que era imperativo encontrar o Mestre ou a Escola de Sabedoria corretos e que então tudo se resolveria.
Encontraram vários... mas nada aconteceu!
E percebem que essa procura, que tinha tido um papel importante na libertação das regras cegas de antes,
é agora o que impede o seu progresso.

E então podem reconhecer que o tesouro já está à sua mão!
Aqui... dentro de cada um. Onde mais poderia estar?
Não na forma comum e superficial de ser, que avalia e julga o mundo sem descanso, consumindo toda a sua energia
e mantendo-os exaustos, mas "lá dentro" de cada um, guardado no espaço sagrado do seu coração.
Um lugar pacífico, doce, constante, satisfeito.
E percebem que a chave prá se chegar até ele é bem simples:
basta reconhecer a presença do ego buscador, que se julga muito importante e mais "evoluído" do que os demais,
e então tirar a sua força, silenciar internamente... e nada querer, nada esperar, nada buscar.

Viver cada ato simples da vida totalmente, intensamente.
Mente e corpo juntos, no mesmo lugar, sem divisões, vivendo tudo integralmente.
E que o único custo de toda essa abundância é apenas abrir mão das suas mágoas e
dos sonhos de vitórias, ou vinganças, num futuro qualquer.

Tudo é dado assim tranquilamente, sem esforço especial nenhum, a qualquer um que se dispuser a trabalhar o ego
e deixar de lado suas rígidas certezas e o ritmo frenético dos seus julgamentos banais...
nem que seja apenas por alguns instantes. O sabor da verdade e da felicidade vem para todos igualmente... sempre!

Esses sobreviventes, que seguem em frente, naturalmente começam a formar um novo grupo,
o dos realizadores: aqueles que encontram e vivem o que buscam.

É triste para eles verem muitos dos seus velhos companheiros de luta acomodados em seus papéis de eternos buscadores sem se arriscar a encontrar nada nunca, irritando-se com a simples menção de que não é preciso mais buscar porque tudo já foi revelado. Não compreendem que estão - sempre estiveram - imersos num mar de sabedoria e respostas e que tudo o que é preciso é fazer a pergunta correta e estar realmente disposto a ouvir a resposta, sempre imediata. Tão simples! Mas difícil de aceitar para os que se acostumaram com caminhos longos e dolorosos e que acabam projetando sua frustração sobre os seus antigos companheiros, taxando-os de simplistas e preguiçosos.

É claro que existe o risco dos realizadores tornarem-se mimados e indolentes.
Se tudo é tão fácil e simples, basta sentar e esperar que tudo se resolva por si mesmo.
Mas não é bem assim que as coisas se passam porque, se por um lado não é preciso fazer nada, por outro
é preciso desfazer muito do que fizemos antes, desarmar todo um sistema defensivo que vem sendo utilizado há séculos.
Se não abandonarmos nossas críticas e ataques, quase sempre silenciosos mas devastadores, contra o mundo à nossa volta,
nada acontecerá e continuaremos a ser infelizes.

Vale a pena correr o risco de encontrar as respostas que nem estão tão escondidas nem são tão difíceis assim de se achar.

Difícil é realizar o desafio que elas colocam: viver o Novo Modelo, uma realidade gerada
à partir da lei do amor que diz:
se queres ser amado, ama; se queres ser livre, liberta.


Aqui os relacionamentos se apóiam na cooperação, os olhares se encontram e a confiança substitui a solidão.

A experiência de cada um é a base do Novo Modelo trazido pelos realizadores que, porisso,
pode ser flexível e adaptar-se facilmente às mudanças.
Essa é a Boa Nova dos que vêm implantando a nova fórmula de estar no mundo sem ser do mundo.

A sua prática cria as condições para o aparecimento do quarto e último grupo de seres humanos,
o dos que apenas são: totalmente livres e plenos.


Antes que alguém me pergunte, posso responder que sim, podemos mudar de cumpridores a realizadores numa mesma vida,
e a história da D. Bárbara, que completa 80 anos por esses dias, é um exemplo claro disso.

Desde menino pude acompanhar os seus movimentos em direção à verdade.
Lembro-me de que, quando eu tinha onze anos, além do português,
ela foi também professora de religião da minha turma, o que, na época, significava ensinar catolicismo.
Falava com paixão sobre as suas convicções e nos levava a refletir sobre o assunto.
Imaginem o impacto que experimentamos quando, poucos anos depois, soubemos que ela tinha se convertido ao espiritismo.
Para muitos foi como um choque mas, para nós, meninos inocentes e ávidos,
foi uma demonstração de que as coisas podiam ser diferentes.
Foi a primeira pessoa adulta que vimos romper com as normas estabelecidas,
deixar de ser uma cumpridora e colocar o pé na estrada, transformando-se numa buscadora.

Uma decisão que marcou a todos nós pequeninos. Hoje, depois de estarmos trabalhando juntos nos últimos dez anos,
posso dizer que tive a honra de acompanhar muitas outras mudanças em sua vida e
de vê-la transformar-se numa realizadora de fibra, capaz de influenciar centenas de pessoas com o seu exemplo
e a mesma paixão de que me lembro da minha infância.

Obrigado, D. Bárbara, pela sua presença na nossa vida, e
por nos mostrar como pode ser o nosso destino como filhos de um Pai Todo-Amoroso.
E tenho certeza de que falo em nome de muitos!   
    Beijos. Arnaldo