Os Dois Desafios
Arnaldo Celso do Carmo - 06/2003
Não faz muito tempo que descobrimos que o caminho que cada um de nós trilha nesta vida pode ser vivido como uma sucessão de problemas ou de oportunidades.
Ainda há pouco acreditávamos que a vida era composta por uma série aleatória e infindável de obstáculos colocados diante de nós com o propósito de nos fazer sofrer e estimular nossos piores impulsos. Foram séculos de confusão vivendo num mundo estranho, cheio de perigos e caprichos da natureza e dos deuses que nos dominavam, contra os quais nada podíamos fazer.
Felizmente estamos despertando.
Começamos a perceber que cada um é responsável pela forma como encara os seus desafios comuns: como tragédias ou como oportunidades.
E esse insight já não é apenas mais uma boa idéia mas vem sendo vivido intensamente.

Como parte deste despertar vejo que todos que resolvemos nascer nesta Terra maravilhosa concordamos em enfrentar dois grandes desafios. Podem ser adiados mas não evitados.
Podem ser fonte de grande sofrimento ou grande crescimento.

O primeiro deles é a escolha profissional: temos que encontrar uma atividade
que nos traga satisfação pessoal e que, ao mesmo tempo, seja reconhecida pela sociedade
como tendo valor suficiente que nos permita sobreviver com dignidade.
A maioria de nós vê esse primeiro desafio como um problema, ou seja, como fonte de tristezas.
Quase sempre significa ter que cumprir uma rotina aborrecida cheia de atividades sem interesse e que nos traz tédio e desalento (Você já reparou na carinha dos caixas num super-mercado, por exemplo?).
“Um mal necessário”, nos garantem quando começamos a sentir o seu sabor.

Mas também pode ser visto como um estimulo preparatório para a fase adulta das nossas vidas. Teremos que aprender a nos relacionar com outras pessoas, algumas das quais que certamente não escolheríamos como amigas, além de decidir o verdadeiro valor das coisas desse mundo. Alguns de nós nunca superamos inteiramente esse desafio, sempre em busca de algo maior ou melhor ou mais adequado
porque ainda acreditamos que o que fazemos externamente pode determinar a realidade do que somos
sem compreender que o seu único objetivo
é fornecer situações que nos ajudem a perceber quem somos e a decidir quem queremos ser.

Mas é no segundo desafio que as questões mais candentes se apresentam:
o desafio dos relacionamentos afetivos.

Todos temos que aprender a nos relacionar afetivamente com os outros. Não há como escapar.
Temos a grande chance de aprender a expressar o nosso verdadeiro sentimento pelos outros, aquele que realmente queremos porque é o que nos faz felizes e satisfeitos: o nosso amor. Aprendemos que expressar amor não é algo que se faz porque devamos fazer ou porque seja mais moralmente correto mas simplesmente porque é o único gesto que nos traz felicidade real e duradoura.

Todos compartilhamos intuitivamente desse conhecimento. Começamos por algumas pessoas específicas e à partir daí, naturalmente, estendemos esse sentimento para os demais. Não há limites para o que o amor pode realizar, mesmo na dimensão do sonho da separação em que vivemos. No entanto, em nenhum outro lugar o ego se sente mais ameaçado do que aqui e porisso revida vigorosamente numa tentativa de se manter. O medo, a culpa e a auto-importância são os seus instrumentos favoritos. Vê problemas e injustiças aonde quer que olhe e quer nos ensinar a nos sentir magoados e atacados por tudo. Estamos nos sentindo injustiçados ou incompreendidos? Então optamos pelo ego. Não há como se enganar.
Boa parte de nós jamais vai além desse ponto.

Cada um desses desafios traz de fato oportunidades de afirmarmos quem queremos ser nessa vida. Em cada uma das nossas decisões optamos por sermos vítimas indefesas do mundo que vemos, com todo conforto que isso possa trazer, ou guerreiros livres, com todas as suas responsabilidades. Com essas decisões – as “pequenas” decisões do nosso cotidiano – é que construímos a nossa realidade de Céu ou inferno. E quando finalmente esses e outros desafios forem usados com sabedoria e o guerreiro tiver acumulado suficiente energia de boa qualidade então o Caminho se abrirá naturalmente diante dele, as respostas virão sem esforço e a paz e a felicidade serão o seu estado habitual.