Nossas Criações

Arnaldo Celso do Carmo
10 /2006



Eu estava no metrô, em pé e, diante de mim, sentada, uma menina morena, cheinha, nos seus 17 anos. Ela estava extremamente ansiosa, desesperadamente procurando algo para matar o tempo e fazer com que aqueles agonizantes minutos dentro do trem acabassem logo. Parecia uma carga ter que viver aqueles momentos.

Lembrei-me de como, para muitos de nós, a vida não é mais do que isso: um peso que temos que carregar para sempre, desviando-nos de problemas sem fim.

Olhando aquela cena comum, numa manhã de uma quinta-feira como todas as outras, de repente dentro de mim uma luz se acendeu.

Percebi que a coisa mais importante que temos - na realidade a única coisa que temos - é a nossa vida mental, a nossa experiência mental, o sabor de cada momento. Enfim, o que sentimos diante de cada situação.

Não havia nenhuma menina, nem nenhuma ansiedade. A única coisa que restaria dentro de mim daquele momento era a maneira como eu estava vendo o que me parecia ser a ansiedade de uma menina.
A nossa vida mental, o conjunto dos pensamentos e das emoções que acolhemos, é a nossa criação, o nosso mundo, o nosso “filho”.
E como a mente tem uma plasticidade infinita, podemos gerar qualquer coisa.

Diante daquela adolescente gordinha e tensa aparentemente por nenhuma razão,
querendo se livrar do seu único tesouro, e tecendo uma teia de sofrimentos sem solução,
senti uma onda de compaixão me invadir.
Como somos ingênuos!

Como nunca notamos essa habilidade, essa imensa responsabilidade de criar,
momento a momento, o nosso cenário pessoal,
que vai determinar se seremos felizes ou não?

Como nunca nos preocupamos em conhecer e desenvolver esse poder excepcional?


Notei a garota rechonchudinha fazendo suas escolhas num nível profundamente inconsciente, gerando uma angústia sem fim, e me perguntei se algo poderia ser feito.
Imediatamente reformulei a pergunta para se algo precisaria ser feito.

E antes que respirasse novamente eu já tinha a resposta: algo já estava sendo feito, feito perfeitamente, no tempo certo e da forma correta.

E eu sabia o que era: relaxei, senti minha mente, desfrutei do meu tesouro,
escolhi a paz e a alegria e tratei de compartilhá-las com ela, deixando que a minha visão do mundo ficasse disponível e a envolvesse.


Por nenhuma razão, senão pelo carinho, sem exigências de qualquer resultado visível, sem contabilidades. Assim... naturalmente... como me agrada que aconteça. Alguma parte dentro dela perceberia a presença da minha paz e do meu acolhimento e os usaria da melhor forma que fosse capaz.

Estava feito! E da forma como deveria ser, sem culpas nem julgamentos.

Eu sempre me perguntei: se eu fui feito à imagem e semelhança do Criador
- portanto também sou um criador - quais são as minhas criações?

A mocinha roliça e ansiosa do metrô me ajudou a responder: meus pensamentos, meus "filhos amados", pelos olhos dos quais eu vejo e experimento o mundo.
E reconheci como eles devem ser cuidados com carinho e atenção.
Se estiverem ligados aos valores deste mundo, eles poderão transformá-lo
mas mudarão com o tempo e, um dia, como tudo, desaparecerão.

Mas se forem nutridos pelos valores do Espírito, como o Amor e a Compaixão,
então serão eternos e estarão sempre comigo.

Depois desse dia, sempre quando estou diante de qualquer situação, lembro-me de que tudo o que ela pode me dar é a maneira como eu a experimento dentro da minha mente e porisso cuido de que seja a melhor. Afinal, filho tem que ser bem cuidado! Dei-me conta do poder contido nessa verdade e da responsabilidade que ela contém e, embora uma pequena parte de mim tivesse ficado preocupada, experimentei uma alegria e gratidão imensas.

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