NASCER E MORRER

por Arnaldo Celso do Carmo
05/2005


Theo e Betinha

Manu e Jana

Muitos no ISH estão passando por momentos de transformação e reflexão
com a chegada de novos companheiros-bebês neste mundo.
Abaixo o Arnaldo compartilha um destes momentos.


Todos estamos excitados com a vinda da Manuela e do Theo, nascidos de amigos muito queridos.
Tive a oportunidade de acompanhar ao vivo a vinda da Manu.
Estávamos na madrugada daquela quinta-feira: Cynthia, Dedé, Ivana,
Wilma - a parteira - Sônia, uma avó, Fairuz, a irmã e eu, além dos pais: Jana e Magro.

Quando o momento da chegada se aproximou,
deixamos Cynthia e Wilma com a Jana e
fomos: Magro, Dedé, Ivana e eu para o andar de baixo da casa e,
seguindo uma bela intuição do Magro,
sentamo-nos em círculo e iniciamos uma singela cerimônia de boas-vindas.


Tocando o tambor com doçura, Magro abriu cantando e nos ajudando a lembrar das forças da luz;
eu fui o próximo e cantei o espírito da Pachamama, criando um ambiente de paz;
em seguida foi a vez da Dedé que, com firmeza, trouxe a canção Lakota do Leste,
convidando o espírito a se aproximar.

Quando passamos a vez para a Ivana, Cynthia nos chamou pois Manu já quase estava entre nós.
Foi como se ela tivesse ouvido e aceito o nosso convite.
Subimos e todos presenciamos os momentos finais do parto.

Com os olhos cheios d'água, honramos a força e a pureza da mamãe Jana
e do papai Magro por receberem Manu num ambiente correto
de grande silêncio, respeito e amor.
Tudo naquele quarto transpirava acolhimento e carinho.


Manu não ficou 3 segundos sozinha pois veio imediatamente, ainda ligada ao cordão umbelical,
para os braços doces e firmes da mãe, linda.

Pensei que essa é a aspiração de todos os espíritos que se aventuram por essas terras.
Mas quão poucos conseguem realizá-la assim tão lindamente.

Lembrei-me dos partos que acompanhei como aluno da faculdade de medicina,
feitos no hospital por gente estranha, num ambiente excessivamente iluminado e barulhento e
uma comparação saltou automaticamente na minha mente.

A primeira mensagem recebida pela Manu foi um abraço carinhoso, seguro,
numa clara indicação de que o mundo é bom e acolhedor e que não é preciso ter medo.

Já os pequeninos intra-hospitalares,... quem sabe o que sentiram quando dedos e sondas precisos,
mas talvez não muito carinhosos, limparam suas "vias respiratórias"; e
o que será que intuiram - porque ainda não se habituaram a pensar - nas horas em que
passaram sozinhos no berçário "por precaução".
Quanto vale uma mensagem como essa enviada pela Jana e Magro?
Quais os seus efeitos a longo prazo?
Não podemos dizer ainda.
Talvez a própria Manu nos diga mais tarde.
Por enquanto fico com a impressão de que estamos no caminho certo.

Certo de que assim somos mais felizes e nos aproximamos cada vez mais da verdadeira condição humana:
seres livres, independentes, confiantes, flexíveis, criativos, vivos.

Fiquei ainda mais feliz quando percebi a compreensão fluindo e expressando-se
nos olhares luminosos dos meus amigos.

Estávamos gratos por receber uma nova guerreira entre nós,
sabendo que seu corpo é jovem mas seu espírito tão antigo quanto o tempo.


Ali, diante de nós, uma parte da mente universal tomava forma e começava a sentir
os primeiros efeitos desse mistério que chamamos tempo,
iniciando mais uma jornada pelos caminhos maravilhosos desta terra linda e generosa.

Mais que uma filha, uma irmã, disse o Magro.
Uma companheira experiente temporariamente esquecida das suas aventuras anteriores.
Mas com o núcleo de sabedoria lá dentro, intacto, pronto para vir à tona se for solicitado.


Senti como as portas têm se aberto para nós e como está clara a nossa função:
estimular corretamente, permitir o desabrochar, o fluir; semear e cuidar; ser junto.
Porisso estamos aqui!
Senti o coração inundado de satisfação pela compreensão compartilhada
com os meus amigos queridos naquela madrugada delicada.
Tudo tão cheio de sentido, tão simples!

Manu chegou trazendo grande sabedoria, muita luz e uma alegria madura, sem euforias banais e vazias.

Todos sabemos que um dia esse corpinho pequeno crescerá, amadurecerá,
percorrerá muitas das trilhas desse mundo e
por fim se deitará quieto e silencioso, deixando que a mente se vá,
tranquila, mais sábia, mais completa, satisfeita.


E nenhum motivo de tristeza ou desespero haverá nisso porque saberemos
que finalmente chegou o momento em que as saudades
que sentimos do tempo em que todos éramos UM ficaram insuportáveis.
E nós, que ousamos escolher viver entre as montanhas, oceanos, vales e florestas
desse gentil planeta azul, finalmente resolvemos voltar para Casa.
Sem dramas nem tragédias. Apenas uma despedida final e a promessa do reencontro...

Obrigado Manu e Theo pelas fissuras que vocês produziram nas crenças tão espessas e escuras
que nos impedem de ver a verdade.
Hoje, com vocês, somos mais sábios, estamos mais felizes.

Beijos. Arnaldo