EVEREST - JORNADA DE FÉ

Guilherme Setani, Totó
agosto-2005

   Um ano (uma vida) de preparação e intenção para escalar o Everest mas as coisas não pareciam boas para mim. A única certeza era que os amigos Vitor e Rodrigo estavam de partida na próxima semana. Dentro de mim a chama ainda estava acesa, contudo mentalmente me parecia impossível.

                     De repente, três dias antes de viajar, a notícia tão esperada de que eu iria junto para o Everest. Um susto, uma alegria e a confirmação da intenção, que vacilou mas nunca morreu.

                    A primeira das muitas lições que aprendi: os nossos pensamentos são mais vivos do que podemos imaginar. A alegria era um pouco triste pois do outro lado estava minha família, que não iria para a montanha. Cada um deles porém teve a sua participação e deram grande força durante toda a escalada.

                     Finalmente partimos, um dia lindo que parecia nos dar força nesta longa jornada. O primeiro grande ponto de parada foi Katmandu (Nepal), uma cidade com os seus costumes parados no tempo, um lugar sagrado cheio de templos e de espiritualidade. Lugar onde se conhecer é algo presente em todos, tanto nos hinduistas como nos budistas, que são as duas grandes religiões de lá.

                     Depois fomos para Nanche Bazar, que é a capital do povo Sherpa, uma cidade situada dentro das montanhas, o ventre deste povo que passa a vida a admirar os maiores “Apus” do mundo. Uma região especial onde as crianças brincam livres e aprendem desde pequenas a respeitar todas as formas de vida. Voltamos então a Katmandu e dai partimos para o tão sonhado Everest. Dentro de mim uma grande alegria pela oportunidade de escalar a maior montanha do mundo e também um desconforto por perceber que o propósito da maioria das pessoas era escalar essa montanha apenas por ela ser grande.

                     Chegamos então ao Tibet, que é o ponto de partida. Muitas outras expedições já estavam lá e o meu conflito se tornou mais evidente. Pessoas e mais pessoas a escalar a maior montanha do mundo apenas por ela ser a maior.

                    Porém, encontrei pessoas com o mesmo propósito que eu, que olhavam para a montanha e apenas ao contemplá-la já se sentiam plenas; pessoas que com o passar dos dias conseguiam estabelecer um diálogo com estes seres tão antigos e consigo mesmas. A conversa interna foi intensa e com isso consegui, dia após dia, descobrir um pouco mais sobre o meu verdadeiro eu.

                     Passamos quase dois meses na montanha nos preparando para atingir nossos objetivos: chegar ao cume. O mais interessante foi perceber que tudo era mutável - os planos estavam sempre sendo refeitos - mas o intento permanecia o mesmo.

                    A montanha se revelou dura e nos mostrou que era preciso ser maleável. Com muita persistência, paciência e vontade conseguimos realizar nossos objetivos. Quando um dos integrantes (Vitor Negrete) atingiu o cume, os outros atingiram com ele suas metas.

                     Com isso retornamos a Katmandu depois de viver um grande tempo com o povo Tibetano que, com sua simplicidade, nos ensinou um outro modo de olhar a vida. Aprendemos muito com este lugar onde a morte está sempre ao nosso lado, e com ela a paixão pela vida que é o maior dos nossos tesouros.

                     Fechou-se assim um ciclo muito bonito que fez os amigos ficarem mais amigos e as cores mais vivas na nossa vida. Como diz Fernando Pessoa: “a borboleta não tem cor e sim a cor que tem cor nas asas da borboleta”.