ENTRE O SILENCIAR E O SE CONHECER: O SENTIDO ESSENCIAL DA COMUNHÃO DA HUMANIDADE COM A MÃE TERRA.

Maria Cláudia Conti Nunes – Julho de 2007


Já é de longa data a discussão filosófica da “realidade”, do que é “a verdade”, ou mesmo se ela existe. Acredito, particularmente, haver uma, e que as visões construídas a cerca dela dependem da distância em que se encontram os humanos dessa verdade imutável, una, perene e essencial. A aproximação entre eles – ser humano e essência - se faz por um simples, porém árduo, trabalho de abertura, que desnuda o indivíduo de muitos dos conceitos arraigados a suas idéias, e consequentemente a seu corpo, adquiridos em seu processo educacional desde o nascimento.

Com a iniciação em meu trabalho de autoconhecimento, passei a tomar consciência da responsabilidade pelas minhas atitudes e suas conseqüências perante toda a vida, e todo o mundo que se faz construir em meu imaginário.

Reconheci, e ainda faço, meus padrões de comportamento e pude ver a grande carapaça na qual me fiz envolver pelo medo dos “contratos” que acordei com o mundo, e que talvez não fizessem sentido ao meu verdadeiro sentido de ser.

E essa foi a grande descoberta, a existência de um verdadeiro sentido de ser, que por uma série de escolhas inconseqüentes e inconscientes o aprisionaram entre limites ilusórios e descaradamente mal fundamentados, privando-me de sentir todo o êxtase do fluir desse sentido, dessa verdade, desse verdadeiro sentido de ser.

Agora só faço estudá-lo. Observo-me, reparo em todas as coisas e como reflito a elas. Já tenho um grande banco de dados em minha memória intelectual, e possivelmente as minhas células também estão ficando a par do que faz bem ou não ao meu corpo. A partir daí vou escolhendo meu caminho, na mais alta medida do consciente que posso, dentre as possibilidades que consigo enxergar.

Vejo o quão trabalhoso tem sido agraciar e honrar essa minha essência nos tempos e espaços onde tenho escolhido viver. E percebo as tantas contrariedades em que estou imersa.

Foi numa praia quase virgem (se é que se pode falar em algo “quase virgem”), longe de aparelhos elétricos e suas antenas e fios, afastada o suficiente para não ter conhecimento em seus ares de fumaças de automóveis e buzinas em trânsitos intermináveis, e com a inocência do saber viver sem a irreal necessidade absoluta de telefones fixos, celulares e internet, é que me descobri cidadã do mundo natural. Mundo este desconhecido de tantos que já nasceram entre chão de asfalto e montanhas geométricas do mais bruto concreto, alguns, sim, coloridos, porém, em sua maioria, cinzas; ou esquecido por homens e mulheres vindos de solo de barro e que foram seduzidos pelas promessas de um confortável mundo sintético.

Acho que essa é a grande explicação das incongruências entre as escolhas dos seres humanos e seus sentidos de ser. A maioria deles não conhece a produção natural do planeta que habitam, e graças aos adventos do mundo científico, alguns nem mais o são, portanto, mal conseguem compreender a conexão que têm com a Mãe Terra.

Sem entrar na interminável discussão entre evolucionismo e criacionismo, seja o decorrer dos seres pelos tempos produto das variabilidades e mutações aleatórias, ou modelagem de um criador que do alto tudo vê, as coisas me parecem ser movidas naturalmente por nexos e alguma coerência causal entre todos os seres, viventes ou não, sem que o racionalismo autopostulado onipotente dos seres humanos interfira no fluir das coisas. Meticulosamente exponho minhas idéias esquivando-me do embate com os convictos pensadores, pois não nego, sequer mal digo o pensamento racional. Se o ser humano foi dotado desta capacidade mais certo seria usá-la, absolutamente!

Aponto que o uso da razão, fundamental ao sentido de ser dos humanos, se faria mais lógico se atuante em total coerência com o fluir natural das coisas. A esse processo gosto de me referir como a “otimização da função racional”. De que forma, então, isso pode ser possível se o que menos a humanidade faz é parar e silenciar um pouco a fim de sentir direção, sentido e velocidade desse fluxo contínuo e harmônico do planeta, se permitindo seguir junto a ele?

E enquanto isso, maior distância tomamos da Terra, separados dela por camadas de asfalto, névoa de monóxido de carbono, manchas de óleo sobre as águas, sujeiras sobre longas faixas de areia, sons, imagens e palavras gritantes cheios de significados, porém de um vazio existencial seco, que se apropriam do silêncio por se julgarem necessários, todos produtos da humanidade egóica sustentada por pré-conceitos concebidos a partir de uma visão de mundo já bem afastada da “realidade”, ou da verdade imutável, una, perene e essencial, orientadora do sentido de ser dos homens, mulheres, crianças e de todas as coisas.

Não cabe a mim afirmar qual o caminho correto a ser seguido, ou as escolhas que deveriam ser feitas, pois também estou por descobri-las. Cada um que faça como queira, contanto que seja, então, totalmente responsável por suas ações. Há os que esperam um mundo, mas não fazem por onde recebê-lo. Apenas tento elucidar uma possível causa de tanta separação, desacordo e desilusão a qual os seres-humanos estão submetidos.

Não há felicidade sem conhecer quem somos e
o que nos faz felizes.

Não há amor sem reconhecer a essência
a qual estamos conectados.


O mundo em que vivemos é resultado direto das nossas escolhas.


O Planeta está se degradando numa certa velocidade que a ciência, sempre em seu encalço, consegue, quando muito, amparar os cacos. Acredito plenamente que, mais do que qualquer impacto das previsões científicas em relação às futuras catástrofes ambientais, o que fará, e já está fazendo a muita gente, a chegada da consciência de preservação e cuidado com a Terra é a conexão do homem com sua própria essência, o seu encontro com o fluxo natural das coisas num movimento dialético de encontrar em si toda a clareza da natureza e de buscar na natureza o verdadeiro sentido de ser, na perfeita comunhão entre humanidade e Mãe Terra. E, que assim seja!