DESCOBRINDO O BRASIL

Arnaldo Celso do Carmo
02/2003



Era um dia normal de trabalho no Céu...

Todos atarefados se preparavam para as audiências do Todo Poderoso que já vinha chegando, cantarolando e feliz como sempre.

Os espíritos se acotovelavam no imenso salão onde aguardavam a sua vez de, diante do Pai, dizerem o que esperavam da sua próxima encarnação no Planeta Azul, o mais suave de todos os planetas do chamado Sistema Solar.

Era uma oportunidade muito disputada e porisso os currículos se amontoavam – todos queriam uma chance de brincar no “paraíso” (era assim que, carinhosamente, o lugar era conhecido entre os Iniciados). Normalmente tinha-se que esperar muito tempo por uma vaga.

Para esses que lá estavam hoje, tinha chegado finalmente o grande dia.

O Pai Misericordioso os interrogaria com doçura e, diante de suas pequenas solicitações procuraria, com Sua Infinita Bondade e Compreensão, atender a todos inteiramente sem que faltasse nenhum detalhe.

Sua maior preocupação era como, depois de uma vida inteira de distrações, alegrias, pequenos dramas e preocupações, e um total esquecimento de tudo que haviam conhecido antes daquela breve aventura – que no Planeta Azul costumava durar no máximo 80 de seus rápidos giros em torno de seu Sol – seus filhos, entorpecidos de tanta fantasia, se lembrariam de como voltar para Casa, para os Seus Braços Sempre Abertos. Porisso era sempre com isso em Mente que o Todo Atencioso encerrava suas entrevistas.


O primeiro que se apresentou foi um espírito quieto, meio taciturno, de pouca conversa, que declarou querer ter uma vida privada, viver mais recolhido e envolvido apenas pelos seus próprios problemas, que não precisariam ser grandes mas apenas parecer que eram.

Mas como é que ele pretendia encontrar o caminho de volta prá Casa,
perguntou o Pai.

Ele respondeu: - Dessa vez não quero me preocupar muito com isso. Vou correr o risco de me perder por lá,… quem sabe esticar minha estadia por mais algum tempo.

O Grande Espírito então refletiu bem e, chamando seu assistente para assuntos terrenos, Gabriel, ordenou:

- Ô Gabriel, me encaminha o rapaz aí prá Áustria ou Alemanha. Se não tiver mais vagas lá, pode ser na Inglaterra mesmo. E vai com Deus, Meu Filho, que Eu acho que A Gente não vai voltar a se ver muito cedo. Próximo!

Veio um espiritito bem magrinho, calmo, com jeitinho zen de andar e falar que declarou que tudo o que buscava nessa próxima vida era viver sob a orientação de um Mestre Iluminado sem ter que se preocupar com os problemas da vida comum. Tudo isso já o havia aborrecido outras vezes e desta vez ele queria algo mais “espiritual”. E para voltar para Casa nada melhor do que a orientação do Mestre que se encarregaria de tudo. Ele apenas cumpriria suas determinações e tudo daria certo no final, mesmo que demorasse algumas vidas. Por ele estava bem,… não tinha pressa.

O Todo Piedoso precisou refletir pouco desta vez e determinou com Sua Voz tonitroante:

- Ô Gabriel, me leva esse rapaz aí pro Tibet, vê como estão as coisas e se ainda existem Mestres por lá. Se já foram todos embora então procura ali nas redondezas mesmo, no Nepal ou Butão. Prá Índia acho melhor não levar não porque nos últimos séculos foi tanta gente querendo ir que eu me confundi um pouco e me parece que lá já não cabe mais ninguém. Próximo!

Entrou um espírito agitado, meio atrapalhado, meio confuso, que começou a falar sem parar uma coisa depois da outra.

Disse:"Senhor, na Sua Infinita Generosidade sei que pode atender todos os meus pedidos e eu gostaria de: viver mais de 100 anos, poder tomar um bom vinho todos os dias, amar lindas mulheres, ser um grande jogador de futebol, fumar os melhores charutos, comer muita carne de porco, ser rico, poder sentir o significado da verdadeira amizade, ser fiel à minha mulher, ter muitos filhos, cuidar muito bem deles, comprar uma linda casa no campo,… "

- Pára! exclamou Sua Paciência Infinita,… - Tá bom, tá bom,… vai prá Portugal e Me espere por lá, porque Eu mesmo irei te buscar quando for a hora de voltar.

Ah! e voltando-se para o lado, falou num sussurro:
- e,… Gabriel, me manda um anjo prá acompanhar esse aqui porque senão ele não vai nem chegar lá em baixo. Quem tá de plantão hoje?

- Só o Manuel, Misericordioso.
- Não tem outro?
-Não, meu Amado Senhor.
- Bem, então esse há de servir. Próximo!

Chegou um sujeito descolado, boa pinta, fazendo umas caretas ensaiadas, falando umas gírias estranhas, cheio de auto-confiança que disparou:
- Olha aí gente, eu tô querendo é ter um alto nível de consumo, carros grandes, mulheres, ar condicionado e aquecedor em casa, poder reclamar da vida, fumar maconha, beber cerveja, esquecer do resto do mundo, pensar que tudo sou eu, ganhar muita grana, ter muito sucesso, falar uma língua que todo planeta fale prá não ter o trabalho de aprender nenhuma outra, poder bater nos mais fracos à vontade,… enfim,… quero ser o chefe dessa vez.

E prá voltar prá Casa? Bom,… deixa comigo que eu resolvo isso, confie em mim. O Senhor pode ficar tranquilo.

Well,… pensou o Grande Criador coçando a barba que tinha resolvido usar naquele dia enquanto renovava interiormente Seus votos de manter Sua Infinita Bondade. Por fim declarou:

- Por favor Gabriel, me leva esse aí pros States, talvez no Texas ou Washington. Tem lá uma tal família Bush que poderá aceitá-lo. Fala prá eles que é um favor especial para Mim. Você sabe: quem dá aos pobres empresta a Deus. Próximo!

Entra uma galera inacreditável: homens, mulheres, crianças, jovens, gente de todo tipo e um agito efervescente tomou conta do escritório do Grande Legislador.

- Mas o que é isso, Gabriel?

- Sinto muito, Todo Tolerante, mas o pessoal fez questão de entrar todo mundo junto, não teve jeito.


- Mas sim Senhor, era só o que Me faltava. Mas Nós em Nossa Infinita Flexibilidade não nos aborreceremos por isso, pensou o Todo Piedoso enquanto observava Seus Filhos conversando animadamente, cantando, dançando, se abraçando, uma algazarra feliz,…enfim,… se relacionando.

- Muito bem, e o que Podemos fazer por vocês?

E aquele que parecia ser o líder daquela gente esperta e barulhenta se adiantou humildemente e, sem perder o jeito arriscou:


- Senhor dos Universos, sabemos que o que iremos pedir é altamente irregular e provavelmente contraria todas as leis criadas por Sua Infinita Sabedoria. Mas é que nós gostaríamos de descer todos juntos prá poder viver esse jeitinho amigo e carinhoso que nós aprendemos aqui no Céu.

A gente queria testar uma forma nova de fazer as coisas lá embaixo.

Ao invés daquelas obrigações sem sentido que todo mundo parece ter que cumprir, dos velhos ideais de vida de conseguir sucesso, segurança e fortuna, daquelas atitutes antigas de desconfiança, inveja e ansiedade e daqueles sentimentos obsoletos de medo, ódio e impotência, a gente queria experimentar o contrário.

Mostrar que a amizade sincera não só é possível como é a coisa mais natural do mundo, porque ela é a expressão de quem nós somos de verdade: seres feitos de Amor; que somos muito mais felizes quando compartilhamos o que temos do que quando competimos para ter mais e mais, sem ter idéia do porquê fazemos isso; e que todo mundo já sabe disso tudo muito bem, só falta alguém mostrar como é que se faz na prática. A gente tá a fim de ser esses primeiros humanos em tempo integral.

- Isso significa que vocês abririam mão de Mestres Iluminados, caminhos solitários e perigosos, confusões sem fim e daquela arrogância tão típica dos seus semelhantes?

- Sim Senhor, é isso mesmo. No lugar dos Mestres teríamos um ao outro e, ao invés de confiarmos apenas em nossas próprias idéias solitárias aprenderíamos a ouvir e seguir diretamente a Sua orientação,… se assim nos permitir Sua Compreensão Infinita.

O Pai de Infinita Doçura, meio surpreso meio contendo um Sorriso de Íntima Satisfação, o que não acontecia já há muito tempo, pensou por um instante e cochichou baixinho:

- Ô Gabriel, existe um lugar lá embaixo que seja amplo, com terra fértil e generosa, calor o ano inteiro, matas virgens, muita chuva e sem terremotos?

- Deixa eu ver, Pai Querido,… É, tem sim,… tem um lugar afastado, que fica meio longe de tudo mas tem muito rio, montanhas, matas, praias sem fim,… é só beleza. É um bom lugar prá se começar tudo de novo.

- Está decidido, sentenciou o Todo Amoroso, vocês vão prô Brasil. Vamos rever as regras da velha vida espiritual, aproveitar o que elas têm de melhor e criar, ou melhor nos lembrar, de uma “nova” maneira de voltar prá Casa.
Quando estiverem cansados de tanta fantasia e as ilusões de poder, glória, conhecimento, prestígio, segurança, etc, já não os atraírem mais, ouçam seus amigos porque Eu estarei falando com vocês através deles; ouçam pessoas que vocês nem conhecem porque Eu também estarei falando com vocês através deles.
Não se esqueçam de se relacionar uns com os outros dessa forma diferente do que tem sido até agora: ouçam o que os outros têm a lhes dizer porque Serei Eu que estarei falando. Não fiquem pensando em outras coisas, ou naquilo que vocês vão ter que dizer quando ele terminar. Quando chegar a sua hora serei Eu Que falarei por vocês.
Agora vão e não se esqueçam: na dúvida,… confiem! Vai dar tudo certo!

E quando eles já estavam flutuando felizes na direção do Planeta Azul, Gabriel ainda gritou lá do portão:
- Não se esqueçam do segredo: sejam humanos,… sejam humanos,…

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