A Vontade e a Disciplina
             

                                      Rodrigo Gentil Palma



“Uma mente sem treino nada pode realizar”
(Um Curso em Milagres, pg. 1)



Muito tem se falado da mudança da forma como vemos a realidade e a nós mesmos, da passagem de um mundo onde somos vítimas de tudo, conformados com a nossa pequenez e infelicidade, para um Mundo Novo onde criamos a nossa realidade, assumimos a grandeza do nosso ser, nossa alegria e felicidade.
No entanto, a grande questão é: como fazemos esta mudança?

Notamos que muitos falam e parecem saber deste Novo Mundo, mas não conseguem viver nele e, frente a esta incapacidade, acabam achando que precisam estudar mais ou talvez encontrar um grande mestre que os ensine. Por vezes pas-sam toda uma vida sem perceber a verdade de que saber não é o mesmo que ser e de que há uma grande diferença entre “saber o caminho e trilhar o caminho”.

É essencial compreender que para trilhar este caminho necessitamos de uma mudança de atitude, “fazer mais, falar e pensar menos”. Mas para isso precisamos desenvolver algo fundamental: nossa VONTADE. Não a vontade automática, cheia de desejos caprichosos que não passa de um simulacro da verdadeira, mas uma Vontade forte e clara, que precisa ser treinada e desenvolvida dia após dia pelo caminhante. É um processo simples, mas não tão fácil, pois exige aquilo que chamamos de DISCIPLINA.

Muitos não gostam desta palavra, acham-na dura e pesada porque não percebem que a verdadeira Disciplina é uma postura interna, um estado de espírito que praticamos a cada segundo. Ela não está presa a qualquer coisa e não tem nada a ver com horas de meditação, com dietas alimentares rígidas ou exercícios físicos extenuantes, pois reside numa parte mais sutil de nós mesmos, não dependendo de nada do que fazemos externamente.

Encontrar a verdadeira Disciplina sem ajuda é algo difícil, principalmente para o iniciante, que não sabe muito bem o que é esta postura interior. Exatamente por isto, ao longo dos séculos, caminhantes mais experientes foram criando ferramentas para ajudá-lo nesta jornada. São como placas de sinalização, atalhos mais seguros, grutas para descanso, fogo para aquecer e iluminar.
Estas ferramentas são inúmeras e têm nomes como Arte, Música, Dança, Yoga, Artes Marciais, Presença, Oração, Meditação, Curso em Milagres, Temaskal, “Vision Quest” e tantos outros dos quais um certamente toca nosso coração. São como sementes que quando regadas diariamente brotam e crescem. E é neste ato de zelo que nasce a raiz forte da Disciplina e da Vontade, ou seja, a Disciplina não é a semente ou a planta e nem a água que a nutre. É algo além, mas tão essencial que se não existir a planta morre.

Por isto, o caminhante é aquele que, faça chuva ou sol, estando forte ou fraco, feliz ou triste, vai lá e rega a sua sementinha da melhor forma que puder. Ao final tem uma árvore forte e bonita, mas não se apega a ela, pois conquistou algo muito maior e mais poderoso. Agora, entende que a árvore foi simplesmente uma ferramenta e que se quiser poderá fazer qualquer outra crescer. Ele não tem mais medo, sabe que não pode fracassar, pois é mestre da sua Vontade.

E neste ponto compreende o que é a verdadeira Disciplina. Vê que é algo vivo, criado a cada instante através da forma com que se relaciona com o Universo. A Disciplina passa a ser sua respiração, seus pensamentos, seus sentimentos, o mover de um olhar e o movimento de um dedo.

Como diz Don Juan:
“ A disciplina (...) não tem nada a ver com rotinas aborrecidas. Os xamãs a entendem como a capacidade de encarar com serenidade as dificuldades que não estão incluídas nas nossas expectativas. Para os xamãs a disciplina é uma arte: a arte de encarar o Infinito sem vacilações, não como um resultado da sua firmeza, mas da sua admiração reverente. Em poucas palavras eu diria que A DISCIPLINA É A ARTE DE SENTIR ADMIRAÇÃO REVERENTE.” (Carlos Castaneda)

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