Atitude amorosa: Revolução ou Alienação?

Ana Paula Klein - 05/2007                                 


Temos uma história de luta. Em face de desigualdades e injustiças nos unimos para uma transformação.
Nos mobilizamos para o fim da escravidão em busca de liberdade;
nos mobilizamos com a ditadura, partimos para a luta armada.

Em nossos corpos carregamos os registros de tanto sangue,
tantas dores, tantas batalhas.
Foi preciso.

Vivíamos em um momento sócio-histórico em que se armar e lutar fez-se necessário,
mas agora pergunto: precisamos continuar neste caminho?
Será que não existem outros meios de transformação que não exijam tanto sangue?

Parece que temos um desafio. O desafio da mudança por meios pacíficos.
E porque isso agora?


Ora, podemos reconhecer que o mundo precisou de luta armada para sua existência,
mas é só olharmos para o lado que reconhecemos também que este método fracassou.

Na busca da paz nos atropelamos e escolhemos um caminho inadequado.
A violência cresce a cada dia, nunca se tomou tanto antidepressivo;
as pessoas estão desiludidas e sem esperança.
Nesta época de tantos desconfortos, tantas inquietações,
somos chamados para uma nova atitude.
O que fazer então?

Primeiro diria que precisamos desconstruir a crença de que ser revolucionário é ser “briguento”.
Gandhi nos mostrou claramente o quanto é possível promover transformação sem armas,
sem sangue, apenas lutando pacificamente.


Devemos re-significar tal palavra.
Para mim, ser revolucionário hoje em dia é ser amoroso, compreensivo, generoso.

Em meio a nossa cultura do medo, da violência, vivemos em estado de alerta.
A qualquer momento podemos ser assaltados, portanto: “fique esperto”.
A qualquer momento podemos ser seqüestrados, portanto: “não ande sozinho, olhe para os lados, não confie em ninguém, confira se há alguém perto do seu carro antes de entrar, não pare em faróis, não ande com os vidros do carro aberto, etc., etc., etc.”.

Somos bombardeados de informações assustadoras que aos poucos nos aprisionam na jaula do medo.
A sensação é de que vivemos em uma guerra.
Ficamos paralisados, sem saber o que fazer, achando que realmente
não se pode fazer nada frente a esta situação.
Ou melhor, o que você deve fazer é se fechar em casa,
só sair quando realmente necessário, evitar lugares desconhecidos, escuros,
fechar seu coração. Feche seu coração e desta forma você estará protegido!

Pois é. Triste reconhecer que estamos escolhendo este caminho.
No desespero de sairmos da armadilha do medo, nos enroscamos mais ainda em sua dinâmica.
Ao gradearmos nossos corações, blindamos também nosso sentir.
Vivemos apáticos ao mundo, aos outros, sem a esperança de que é possível ser feliz.

Portanto, volto a dizer, agora com mais clareza: ser revolucionário é ser amoroso.
Estamos cansados de atacar e ser atacados, de nos fechar e de nos isolar.
Queremos nos conectar novamente com nossos corações, voltar a sentir,
sair do estado de pânico que impede que nos encontremos com o outro.

O que nosso coração quer é um encontro amoroso com o próximo,
é sentir a alegria de estar junto, caminhar junto, construir junto.

Revolução!

Vamos revolucionar nossas atitudes, nosso modo de se relacionar com o outro. Abaixo aos corações armados! Abaixo a ditadura do medo que nos impede de amar! Abaixo as grades que nos cercam e ilusoriamente nos protegem do “mal”!

Faço aqui um convite para que todos olhem para si, reconheçam seus medos e os acolham.
Este é o primeiro passo para podermos olhar para o outro e
percebermos que ele sofre do mesmo mal: a crença de que o coração blindado
vai nos proteger do sofrimento!

Ao reconhecermos que todos com quem eu me relaciono sofrem pela mesma ilusão,
abro uma pequena janela e começo a perceber que sem ar, o coração não vive.
Sem sol, o coração não esquenta. Que se desliguem os ares-condicionados!
Que se abram as portas da alma para nos abrirmos
também à possibilidade de sermos felizes!


Topo