Decisões tomadas por Consenso

Cynthia A. L. Almeida - 08/2003


Desde a última reunião do grupo coordenador do ISH, tenho pensado muito
sobre como seriam as tomadas de decisão num Novo Modelo.
Pensei nos modelos que vemos com maior frequência:

O modelo ditatorial: uma pessoa toma a decisão e as outras “engolem”, aceitando bem ou não.
Considerado meio ultrapassado mas ainda muito em voga neste mundo do ego
(se você duvida visite a maioria das empresas).

O modelo democrático: as várias opiniões são expressas e faz-se uma votação.
A maioria vence mas, de novo, resta aos perdedores acatar a decisão.
Este segundo modelo é considerado por nós o melhor que conhecemos,
mas penso que votar ainda está preso ao modelo: um perde/outro ganha.
Perdemos muito tempo tentando convencer o outro que temos a melhor proposta
ao invés de trabalhar as diferenças e assim ganhar com a diversidade.
Em essência é um método quantitativo e não qualitativo.

O que seria um Novo Modelo?

Percebemos na última reunião que, há muito tempo, já estávamos intuitivamente
colocando em prática uma nova forma, mesmo sem termos falado nela.
É a decisão baseada no consenso.

É um método onde todo o grupo chega a um acordo.
As idéias de cada um são ouvidas com atenção e cuidado e são sintetizadas e
trabalhadas por todo o grupo até que apareça uma decisão final que seja aceita por todos.

O consenso não trabalha apenas para que uma decisão seja tomada mas promove o
crescimento da confiança entre os membros do grupo.
Nenhuma idéia é perdida e a participação de cada pessoa é essencial como parte da solução.
Através deste trabalho aproveitamos aquilo que cada um tem de melhor e
ativamos nossa mente coletiva com sua inteligência mais global que, em geral,
tem soluções muito melhores do que as mentes individuais trabalhando separadas.

É interessante perceber o que está subjacente nesta nossa nova forma de agir:

Ouvir com atenção: Acreditamos que cada intervenção é importante para se chegar à uma conclusão melhor. Ouvimos com espírito de aprendizado e curiosidade, mantendo-nos abertos à novas idéias.

Respeito do grupo a cada participante: Cada pessoa sabe que será ouvida de forma integral e
com o mínimo de pré-julgamento possível.
Sabe também que respeitar não significa necessariamente concordar com o outro.

Respeito a si mesmo e responsabilidade individual: Cada pessoa assume que sua participação
na decisão é importante e tenta nunca desvalorizar suas próprias idéias.

Auto-disciplina: Cada pessoa se dispõe a tentar dominar seus impulsos egóicos e
tenta não assumir que suas idéias são as únicas que importam.

Compromisso: Cada pessoa faz o seu melhor e o grupo assume que todos estão
tentando dar o melhor de si, têm boas razões para pensar como pensam e
desejam continuar caminhando juntos.
Unidade: Reconhecemos que, se todos somos um, em essência os interesses
de cada um são os mesmos que os interesses de todo o grupo.


Um último aspecto, e talvez o mais importante de todos, é a escala de valores que é usada pelo grupo.
Nos grupos que habitualmente trabalham com “decisões baseadas em consenso”
valoriza-se muito o espírito de coletividade: o trabalho e a manutenção do grupo
é colocado acima dos interesses dos indivíduos que o compõem.

Isso também ocorre no ISH mas acredito que aqui existe outro valor fundamental
que permeia todas as nossas decisões:

tentamos manter o conteúdo do Trabalho independentemente da forma como ele se expresse.

O que vemos habitualmente é que os egos, em geral, estão tão ligados à forma que,
tentando manter seu poder, ficam mudando o conteúdo numa tentativa de preservar a velha forma.

Aqui queremos fazer diferente! Sabemos que qualquer forma exterior não passa de uma forma
e que o quê realmente importa é que o conteúdo permaneça íntegro.
Quando vamos tomar uma decisão vemos se o conteúdo está correto e, se estiver,
podemos deixar que qualquer forma externa seja realizada.
Sabemos que, na perspectiva do Trabalho,
toda experiência é válida, contanto que eu aprenda com ela.
Vemos, assim, como a forma externa é colocada em um lugar de menor importância
em nossa escala de valores e como isso tem vitalizado o Trabalho do Instituto
que aprende a se focar no essencial.