A Presença

Arnaldo Celso do Carmo - 05/2007                                 



Olhar o mundo com os olhos do estado presente traz inúmeros benefícios.
O maior deles? Conectar-se verdadeiramente com o mundo ao seu redor.
Sentir que tudo é parte de nós e que nós somos parte de tudo.

Falar sobre a prática do estar presente – manter a mente no presente
enquanto realizamos as tarefas comuns da vida
- é contar um pouco da minha história.
Tenho praticado, voluntariamente, o “estar presente”, às vezes mais intensamente,
às vezes menos, pelos últimos vinte anos.
Através dessa experiência posso afirmar algumas coisas que foram transformadas
– e transformadoras – na minha vida.

Aprendi a ser disciplinado, a escolher algo e manter minha escolha,
independentemente das inúmeras distrações do mundo comum.
Isso trouxe mais força às minhas decisões, mais intensidade aos meus atos,
mais profundidade à minha visão.
Hoje sou muito mais capaz de influenciar o mundo ao meu redor.

Outra mudança: comecei a reconhecer os aspectos mais essenciais da vida,
e acabei reorganizando os critérios que regiam as minhas escolhas.
Reordenei minhas prioridades e aprendi a segui-las com mais foco,
o que me trouxe mais paz, felicidade e liberdade.
Enfim, ficou claro o que importava e o que não importava; pude me dedicar ao essencial,
e com chances maiores de conseguir atingi-lo.

Estar no presente nos desconecta da nossa experiência habitual com o espaço e o tempo,
gerando uma imediata sensação de bem-estar quase impossível de definir com palavras comuns.

Nosso vocabulário é pobre para descrever o sentimento de paz e liberdade que
acompanha a prática competente da presença.

Olhar o mundo com os olhos do estado presente é ver
algo muito diferente do que estamos acostumados.

Embora nada tenha mudado, tudo fica completamente diferente porque livre das comparações compulsivas com o passado e das expectativas inevitáveis para o futuro. As situações ganham um outro significado; as palavras, atitudes, formas e movimentos também se transformam.

Mas talvez o que mais se modifique sejam as nossas emoções.
Especialmente o peso emocional das vivências e conflitos do passado passa a ser outro.
De fato, é como se não tivessem peso nenhum. Assim simplesmente.
Sem nenhuma droga ou truque.
E o mais interessante é que a sensação de realidade dessas últimas impressões é fortíssima.
Temos a certeza de estar vivendo algo real, e não um estado ilusório criado por alguma fantasia induzida.

A mudança é real – o passado se foi - e dura tanto quanto
formos capazes de manter o estado presente.


No entanto, mesmo quando por fim regressamos ao estado anterior, de não presença, já não voltamos como antes. Trazemos o sabor residual de uma experiência que nunca mais nos deixará, e que irá se somar às outras seguintes que formos capazes de gerar.

Até que, num dia especial, não mais deixaremos a sensação maravilhosa
de leveza e alegria que caracteriza o aqui-agora.


Esses aspectos já seriam mais do que suficientes para motivar cada um de nós a buscar sua própria experiência direta da presença. Mas há outros ainda mais importantes.

Por exemplo, no estado silencioso e cheio de vitalidade que a imersão no aqui-agora proporciona, começamos a perceber que estamos intimamente conectados uns com os outros.

De início é uma percepção sutil e vaga que vai se acentuando à medida que praticamos mais e mais o silêncio interior. Quanto mais qualidade alcançamos em nosso estado presente, mais notamos nossa conexão com os demais. Primeiro, com os seres humanos; depois, com os outros seres não humanos do nosso planeta; até que percebemos que tudo é, na realidade, uma Presença única.

Reconhecemos que, quando invocamos a nossa presença, estamos de fato nos lembrando de quem somos, essa Presença única que compartilhamos com todos os seres do universo.

E que a felicidade é o nosso estado natural porque a solidão é impossível.


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