O aprendizado, a abundância e a felicidade.

Lucile Maria Floeter Winter - 09/2005

 

A tarefa do educador é promover o aprendizado, mas o que é ensinar?

O que é ser professor?

Humberto Maturana, um biólogo chileno contemporâneo responde a estas perguntas em um

bem humorado texto no qual coloca que ensinar é “criar um espaço de convivência...”

Que essa é a tarefa do educador, criar as condições para que um grupo “viva junto”. O

professor é a pessoa que deseja a responsabilidade de criar espaços de convivência, este

domínio de aceitação recíproca numa dinâmica em que todo o grupo vai mudando junto”.

Eu sempre acreditei que o professor e aluno vão trocando de papel a cada interação.

O professor ensina os alunos e os alunos ensinam o professor e essa interação permite que

ocorra a criação do espaço de convivência, o espaço para o aprendizado.

Mas o que é aprendizado? Segundo a definição de Maturana, aprender é mudar.

Aí aparece uma nova questão. Quanto o estudante muda em relação à sua experiência de

aprendizado? Quanto o professor muda em função do espaço de convivência por ele criado?

Os educadores propõem, ao planejar um espaço de convivência, objetivos que permitem avaliar

as mudanças, avaliar o sucesso em obter as mudanças. Ao avaliar os objetivos de um curso,

podemos ser pragmáticos e analisar em números como está sendo a eficácia da formação.


Números positivos são indicativos do sucesso, do objetivo atingido, geralmente o de formar

profissionais competentes para atuar competitivamente no mercado de trabalho. Mas será que

esse é o único objetivo dos educadores? Será essa a única mudança que desejamos e

planejamos? Isso basta?

Recorro aqui a outro biólogo, a palavra competição tem um significado particular quando se

pensa em Charles Darwin e sua teoria da evolução, publicada em 1859. Em “A origem das

espécies”, Darwin coloca como fator importante na preservação de uma espécie que os

organismos devem ser aptos para lutar pela sobrevivência, competindo pelo alimento, água, luz,

etc. Nessa teoria da seleção natural, Darwin coloca que o organismo mais apto, ou aquele que

apresenta as variações mais favoráveis, está mais bem equipado para “ganhar” essa luta.

Darwin se baseou, entre outros, em um estudo de Thomas Malthus, 1798,

que dizia que a população (humana) crescia em uma razão diferente (geométrica) do que a

disponibilidade da comida (aritmética). E então para se ter emprego (comida), para assegurar a

subsistência, era necessário ser o melhor.

O que é ser o melhor? Malthus estava correto? Devemos mesmo “lutar” pela sobrevivência,

ou existe outra forma de fazer? de sobreviver?

Para sermos ”os melhores” temos mesmo que “competir”?
.
Em seus estudos, os filósofos Deleuze e Guatarry colocam que muito provavelmente por essa

angústia com a competição, o homem ocidental coloca a sua felicidade na falta, na carência.

Desejamos o que não possuímos e a incompletude é tida como certa e inexorável.

A felicidade é algo que está sempre fora de nós.

Nietzsche, Spinoza e outros filósofos por outro lado, concebem o desejo como força,
não como falta.

Assim nosso desejo será a força que move para atingir o objetivo e
a felicidade então, está dentro de nós.

Então por que acreditamos na escassez mesmo vivendo em um mar de abundância?

Volto novamente para biologia e coloco o exemplo que deveria servir de guia para nosso

desenvolvimento: a vida nos ensina que a melhor maneira de sobreviver é variar.

Assim, o desejo de um educador pode ser maior do que simplesmente

tornar seu aluno “o mais apto”.

A esse desejo pode ser adicionada a incumbência de apontar aos alunos a
responsabilidade que estes adquirem ao mudar.

Os estudantes (professor e alunos) têm a oportunidade de aprender,
de ensinar e repartir um espaço de convivência muito rico.

A mudança final pode ser avaliada em termos numéricos e resultar na visão de que terminado o ciclo de aprendizado, as pessoas estão preparadas para atuar na sociedade.

Pela ótica da escassez, podem ser considerados como melhores.
No entanto, essa avaliação pode ser mais profunda e diversa,
pode ser enxergada pela ótica da abundância, em que cada um é único.

Assim, o espaço de convivência foi utilizado para mudar cada estudante em um ser especial.

Único para cumprir o seu papel social e humano.

Cada um com a incumbência de criar um espaço, numa sociedade que seja capaz de reverter o paradigma da escassez para a abundância, de tornar essa utopia possível.

De certamente poder contribuir para que o Homem fique um ser humano melhor!