A ILUMINAÇÃO POSSÍVEL

Arnaldo Celso do Carmo - 2008


Uma das primeiras coisas que senti quando me aprofundei no Trabalho foi a diminuição da minha vontade de convencer os outros do que me parecia ser a verdade.
Quase sem perceber fui perdendo o interesse de fazer com que as pessoas pensassem como eu. Fui aceitando mais o caminho de cada um e
aprendendo a conviver bem com eles, sejam quais fossem.

Outra compreensão que me aconteceu foi perceber como, com a prática constante da presença e o amadurecimento da minha visão do mundo, o exercício fundamental, aquele que realmente precisa ser praticado, foi ficando cada vez mais simples, mais enxuto.

Com os anos, os rituais sofisticados, as explicações mais rebuscadas, o recurso de lançar mão da legitimidade das tradições mais antigas ou das descobertas científicas mais atuais, foram perdendo a importância diante da formidável simplicidade da atitude essencial. Foi como se eu fosse tirando a roupa, livrando-me das diversas camadas de fantasias que me acompanhavam desde menino. Fui me sentindo mais leve, mais ágil, mais feliz. Como se um peso saísse das minhas costas: não precisava mais convencer ninguém nem me manter fiel a nenhuma prática estranha a mim mesmo.

Minha compreensão foi ficando maior no conteúdo mas menor na forma, menos glamourosa na aparência, menos atraente no aparente.

E pensava que a maioria dos meus amigos, como eu, também experimentava um processo semelhante. Acreditava que, desde que alguém experimentasse – uma vez que fosse - uma conexão mais profunda com o seu Eu Interior e sentisse o sabor do que é estar ligado à parte divina do seu Ser, nunca mais seria o mesmo. Eu acreditava que essa experiência passaria a ser o centro da vida de todos que a vivessem, que se dedicariam a reencontrá-la com todo o seu empenho. Que voltar a essa conexão tornar-se-ia o objetivo de todos. Mas aqui eu me enganei!

Na verdade, o que observei foi que muitos que vislumbraram o potencial divino dentro de si passaram a se dedicar a esquecê-lo. Buscaram formas, muitas vezes doloridas, de fugir da conexão, passaram a evitá-la de maneira muito determinada.
A surpresa que senti até hoje me assombra!

Como era possível que depois de uma experiência de êxtase tão profundo, ou pelo menos do vislumbre da possibilidade desse êxtase, todos não estivessem
inteiramente dedicados a atingi-lo novamente?

Vi como a parte mecânica da mente – o robozinho autônomo que
todos temos dentro de nós - atua de maneira sofisticada
para nos levar para longe da experiência real.

E demorei para compreender que essa é a única tragédia que precisa ser reparada.

O que eu vi? Vi muitos amigos expressando ansiedade ao invés de calma diante de questões da vida comum. Vi a preocupação nos olhares e gestos diante dos impecilhos mais banais. Não reconheci a atitude de recorrer à sabedoria infinita que existe dentro de cada um de nós para nos ajudar a resolver os “problemas” normais. Era como se, diante das dificuldades comuns da vida, os recursos do Trabalho não fossem suficientes. Ou nos jogamos nos braços do ego e imploramos o seu conselho, que sempre vem acompanhado de medo, insegurança, timidez e mentiras; ou concluímos que necessitamos de mais Mestres, outros professores. Os que tivemos até agora não foram suficientes e precisamos continuar a busca, cada vez mais longe, em lugares mais difíceis, países de línguas estranhas e costumes diferentes dos nossos...

Olhei para a minha própria vida e me perguntei: mas o que acontece?
Porque não estamos todos focados na busca do silêncio,
na prática da presença que nos dá acesso a uma sabedoria interior infinita
e que todos já saboreamos pelo menos alguma vez?

O que se passa que não estamos lançando mão dos recursos que já temos e continuamos a agir como pobres quando somos os mais ricos, a nos portar como ignorantes quando toda sabedoria está dentro de nós, a nos ver como doentes quando toda saúde e perfeição foi posta a nossa disposição?

Foi aí que me caiu a ficha: não reconhecemos nada disso. Ainda achamos que somos ignorantes, pobres, fracos, doentes e impotentes e que o que fizemos no sentido de corrigir essa situação foi pouco, muito pouco.

Senti vontade, então, de compartilhar o que aprendi nesses anos de Trabalho Sobre Mim Mesmo. De falar sobre o que considero a atitude essencial e sua simplicidade, sobre o que mantenho como minha prática diária. Do que eu decidi fazer diante dos “problemas” da vida cotidiana. É uma postura tão simples, tão despojada e sem artifícios que pode passar facilmente como algo sem importância.

A atitude é a seguinte: perdoar tudo o tempo todo, ou,
em outras palavras, amar mais.

Perdoar tudo o tempo todo se resume a reconhecer que tudo que nos acontece é bom, está no lugar e na hora certos, tem a forma e o tamanho corretos e pede a única resposta certa: perdoar, ou seja, agir compreendendo que manter a paz é a única coisa que somos solicitados a fazer neste mundo.

O ego desde muito cedo tenta nos convencer de que para estarmos a paz precisamos estar imersos em situações adequadas como ter dinheiro no banco ou prestígio ou um casamento feliz com filhos adoráveis ou sermos jovens e bonitos ou reconhecidos como boas pessoas ou inteligentes ou sermos assim ou assado... etc.

Mas na realidade para manter a paz nós só precisamos nos lembrar do que já sabemos, como diz o CM, que: “o mundo real é o estado da mente no qual se vê o perdão como o único propósito do mundo [...] e se reconhece que todas as coisas têm que ser em primeiro lugar perdoadas e então compreendidas.” (T, 684). Depois de alguma prática essas palavras tornam-se óbvias: não se pode compreender nada que antes não tenhamos perdoado porque fora do perdão só existe a ilusão e
compreender ilusões não significa nada.
Perdoar é (re)unir, é recuperar o sentido de unidade da realidade.
Estar num estado mental não perdoado significa acreditar num mundo onde a separação é real e perder-se num labirinto de distrações complexas e sem significado onde tudo que acontece não tem nenhuma realidade. É porisso que nossas “compreensões” resolvem muito pouco dos nossos problemas, porque o estado mental não perdoado nos mantém presos ao mundo da dualidade, que não pode nos oferecer nada real porque a própria dualidade é o problema.

Vi que vários do meus amigos queridos, quando se deparam essas palavras,
ainda acreditam que elas não são para eles porque
colocam um objetivo “alto” demais, impossível até.

Mas também percebo que muitos de nós já aceitamos que isso não precisa ser assim. Todos podemos sem esforço nos alinhar com a verdade de que fora da mente perdoada, conectada com o Todo, não existe nada. E que todos podemos exercer o perdão e encontrar a paz e a alegria em tudo que fazemos. E que o que falta para realizarmos a façanha de manter a conexão é apenas tomarmos a decisão de fazê-lo de maneira determinada e pararmos de acreditar que somos seres fracos e impotentes.

Existe um certo conforto na crença na nossa fraqueza, uma maneira de driblar
a nossa responsabilidade pelo que nos acontece e de aliviar a nossa culpa
por não vivermos o tempo todo plenos e felizes.

Porque alguém, em plena consciência, tendo o Céu em suas mãos,
se empenharia tanto para fazer da sua vida um inferno?


Uma das respostas que tenho é que ainda somos ingênuos e
não temos consciência das consequências dos nossos atos.

Minha sugestão é simples: perdoar. Tudo, o tempo todo. Manter a presença e amar mais, como eu gosto de dizer. São engraçadas as caretas que me fazem quando digo isso. Como se não entendessem ou não se sentissem capazes.

Me perguntam: mas como? Como amar mais? Ora bolas: amando!!

Parando de tentar controlar tudo e todos a sua volta, deixando de sentir-se uma vítima das situações que se apresentam no dia-a-dia, atitudes que incendeiam o medo dentro de nós e, porisso, estão condenadas a gerar sofrimento.

Ao contrário, aprendendo a alegrar-se e agradecer por tudo que nos acontece, reconhecendo que cada instante traz em si o potencial da Iluminação que, na nossa enorme arrogância insistimos em não ver.

Levar a perolazinha do perdão para todos os instantes da nossa vida. Tome um dia comum. Uma manhã. Centenas de vezes cada um de nós pode usar o poder dessa jóia para se curar, manter a paz, gerar harmonia e felicidade para si mesmo e todos ao seu redor. Centenas de vezes numa única manhã.

Não importa que você se esqueceu e não faz isso nunca. Comece hoje, agora.


E veja os resultados por si mesmo. Veja o que vai acontecer com a sua ânsia de “buscar o conhecimento”, a sua necessidade por novos Mestres, a solidez dos seus “problemas”, a ansiedade basal com a qual convive sem nem sequer se dar conta dela. Faça! E observe os resultados. Não importa que você se esqueça 999 vezes. O que importa é que, na vez que você se lembrar, a sua disposição de perdoar seja impecável. Isso criará um hábito que se espalhará lentamente por todos os outros momentos da sua vida. Pare de reclamar e se sentir incapaz. Faça! Perdoe! Abra mão das suas “certezas”, pratique sua presença intensamente como a coisa mais importante desse mundo
pela simples razão de que ela é mesmo a coisa mais importante desse mundo,
um portal para uma sabedoria infinita oculta e dormente dentro de nós,
esperando para se expressar com doçura, generosamente.

De nada servem nossas técnicas se, em cada instante, cada momento,
eu me esquecer de quem sou e me permitir fazer a escolha pela separação, pela solidão. Sinto que é isso que falta para que o nosso Trabalho seja verdadeiramente eficaz e nos traga a felicidade e a luz que queremos.

Uma pequena pérola, perdoar tudo que nos acontece, no momento em que acontece, sentir alegria e gratidão pela oportunidade que está nos sendo dada de perdoar, lembrando que nada além disso é necessário para que tudo seja finalmente resolvido.
Eu sei que parece pouco. Sem grandes movimentos nem muito brilho, sem complexidades profundas, nem glamour, tudo tão simples. E porisso tão pouco atraente para alguns. Mas outros, estou certo, verão o quanto podem se transformar verdadeiramente se praticarem esse passo tão singelo. Levei toda a minha vida para perceber a sua importância e que o tempo todo estava ao meu alcance.