A Face Oculta do Medo
Arnaldo Celso do Carmo - 10/2003
O Curso em Milagres diz que o oposto do amor é o medo e
não o ódio ou a raiva, como costumamos pensar.

No entanto, embora pareça, essa não é uma oposição verdadeira
já que o medo é definido como a ausência do amor.

O amor é enquanto o medo não é.

Ou seja, a realidade é o amor.

O medo é apenas um vazio, um nada.

Só se o amor estiver “ausente” é que o medo estará “presente”.

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O Curso diz também que amar não é algo que se possa fazer se se quiser ou não fazer se não se quiser. Não nos foi dada essa opção. O nosso livre arbítrio não inclui essa escolha e isso é muito importante compreender.
Amar é a nossa única opção.
Amamos sempre.
No entanto, podemos não estar conscientes desse amor.
E, se não estamos conscientes do amor no qual estamos envolvidos,
então acreditamos estar imersos no seu “oposto”: o medo.
Ou seja: ou saboreamos a natureza amorosa da vida ou vivemos acossados pelo medo.


Hoje quero expor algumas idéias que me ocorreram enquanto
refletia sobre uma estranha situação que criamos.
Em como, sendo o amor a nossa única natureza, nossa única verdade,
permitimos que o medo se tornasse tão forte e tão presente nas nossas vidas.
Tão “real”. E em como podemos desalojá-lo do seu lugar de poder atual.


Sei que, quando dizemos que o medo é o grande responsável pela ausência do amor em nossas vidas, fica difícil compreender. Porque, afinal, ele não parece tão frequente assim. Não é sempre que sentimos medo, ou pelo menos assim nos parece. Bem,... essa é a questão.
Se perguntarmos a alguém quantas vezes sente medo ao longo de um dia comum acho que responderá: algumas. Se começarmos a pensar vamos imaginar algumas situações específicas nas quais o medo se apresenta, como: um susto no trânsito, ou alguém vindo na nossa direção numa atitude suspeita, ou um momento de medo por encontrar alguém desagradável ou ter que enfrentar alguma situação desafiadora.
Enfim,... coisas assim que acontecem comumente mas não o tempo todo. No entanto, se vivenciamos ou o medo ou o amor e quase sempre o amor não está presente então o medo é que está ocupando o seu lugar. Mas onde? E como?

Pois bem. Acredito que o medo desenvolveu maneiras de se esconder,
infiltrando-se na nossa rotina diária de forma a passar despercebido.
Pois, se fosse detectado todas as vezes em que atua, seria intolerável.
Teríamos que tomar uma atitude para erradicá-lo. Então, ele se disfarça.
Dissimulado e habilidoso, introduz-se nos nossos hábitos mais comuns.
Está lá mas ninguém o vê.

Quando comecei a refletir sobre isso imaginei que ele se apresentava
de formas suaves e frequentes e
percebi que um dos seus disfarces preferidos é a ansiedade.
Toda ansiedade é uma expressão do medo, frequente na vida moderna
e poderosa no controle de mentes despreparadas.
Mas haviam outros: a raiva, o tédio, cansaço, depressão, frustração,
indignação, vaidade, arrogância, rigidez, estupidez, fanatismo, e muitos outros.
Todos são expressões elaboradas de algum tipo de medo.


Esse repertório já seria suficiente para que ele controlasse completamente a vida de praticamente todos nós. No entanto, eu sentia que alguma coisa ainda me escapava. Talvez o seu truque mais habitual, mais banal. E porisso o mais oculto. Depois de mais observações cheguei à seguinte conclusão: o disfarce mais comum que o medo utiliza e com o qual realmente toma posse das nossas vidas, sufoca nossa liberdade e impede a expressão da nossa verdadeira natureza amorosa é a imperiosa necessidade de controlar tudo e todos à sua volta o tempo todo.

Um simples olhar comum e aparentemente inocente transporta, via de regra, um sem número de condições e de expectativas. Um simples olhar, aparentemente inocente, mas mortal.
Seu veneno: o medo de que o mundo fuja do meu controle e, de repente, me ataque.

Os sentimentos despretensiosos, distraídos e quase sempre inconscientes da vida cotidiana, repletos de senões, como camisas-de-força justas, scripts que eu espero que sejam cumpridos por todos disciplinadamente, sob a ameaça de serem taxados de culpados.
E o julgamento se faz no meu tribunal, onde sou juri e juiz.
As apelações não são permitidas aqui. Serão condenados com certeza.
E eles são os culpados porque eu sou o inocente.
Triste barganha! Troco a minha felicidade pelo alívio fugaz
que me traz a ilusão de ser o único “certo” do lugar.
E como o alívio é muito fugaz, sou obrigado a manter o julgamento
sempre em andamento, sem nunca poder relaxar.

Para nós o que importa neste momento é perceber a artimanha marota do ego em dissimular seu grande aliado, o medo, nessa forma tão sutil e tão disseminada.
Está em toda parte!
Não há tempo ou lugar onde nos relacionemos uns com os outros
sem esperar nada em troca. Nossos relacionamentos são pura expectativa
– chamamos de “esperança” - plenos de condições.
Puro medo, nada mais. Escondido sob o manto de uma desonestidade
milenar, o ego continua manobrando habilmente para garantir sua sobrevivência.
Mas agora que começamos a descobrir os seus truques é certo que os dias que ainda permanecerá entre nós serão poucos.
Só o que nos falta é a disposição verdadeira de abandoná-lo.
Quando realmente quisermos, será feito. Sem queixas nem lamentações.

Responsabilidade nossa. Alegria do guerreiro.