A Crise e a Iniciação
Arnaldo Celso do Carmo - 07/2007


Depois de anos praticando as opções profissionais que são oferecidas pela sociedade na qual estamos imersos, a maioria de nós se cansa ou se sente irremediavelmente insatisfeita com o rumo que tomou a sua vida. Esse é o momento no qual buscamos a possibilidade de ter uma atividade mais criativa, mais de acordo com os desconhecidos potenciais que começamos a sentir dentro de nós.

É a hora do despertar, que sempre acontece na vida de todos.

No entanto, por força do poderoso condicionamento cultural, esse desconforto, na maioria das vezes, não é encarado como um momento de verdadeira transformação, mas apenas como uma crise passageira que recebe um tratamento do tipo: “a vida é a assim mesmo”, ou “ coisas desagradáveis fazem parte da vida”, ou “estou precisando de umas férias”, etc.

Ou seja, dentro das opções disponíveis, não há nada que satisfaça esse anseio. De fato, não é um anseio mas sim um tipo de alarme, um desajuste que precisa ser corrigido.

Nos últimos tempos desenvolvemos algumas alternativas para lidar com esta “crise” e a mais conhecida tem sido a prática de alguma psicoterapia onde somos estimulados a nos conhecer melhor, a falar sobre o que nos bloqueia e
a buscar novas formas de expressão que sejam mais sinceras.

Representa um grande avanço em relação à situação anterior, mas, muitas vezes, permanece restrita às opções convencionais e não preenche os impulsos de todos, fazendo com que muitos ainda continuem sua busca mesmo depois de vivida essa experiência.

Essa insatisfação, com um forte componente positivo, continua causando movimento e nos faz buscar mais profundamente. E cada vez mais as pessoas começam a se interessar pelas escolas iniciáticas, antigas Tradições que investigam profundamente o coração e o destino do homem e apresentam uma visão abrangente da realidade. Outro avanço... mas que muitas vezes fica detido na dificuldade de adaptação dessas Tradições aos tempos atuais, na inadequação das suas práticas à vida numa cidade moderna como São Paulo. Exercícios desenvolvidos séculos atrás são bons mas podem não ter a agilidade necessária para serem compatíveis com o ritmo atual.

Eu sempre acreditei que para alguém ser um iniciado em alguma tradição seria preciso que passasse por um período de treinamento onde teria acesso a certos conhecimentos reservados a poucas pessoas, participaria de certos rituais e práticas secretas e faria um juramento de seguir certas regras e de não revelar nenhum dos segredos que havia aprendido para ninguém de fora da irmandade.

Foi assim que eu sempre pensei que fosse e porisso sempre acreditei que nunca
seria um iniciado em nada já que nunca conheci ninguém que participasse de alguma fraternidade que me interessasse de verdade e que tivesse conteúdo suficiente que me fizesse submeter a essas normas com alegria.

Mas, depois de alguns anos de trabalho, me dei conta de que
a iniciação pode acontecer também de outras maneiras e que, de fato,
ela tem um significado muito diferente do que eu imaginava.

Descobri que ser um iniciado
é reconhecer um sentido maior na existência e colocar todos os nossos atos a serviço desse sentido mais amplo, significa colocar o Trabalho – ou o Caminho - como o centro da sua vida.

É deixar de lado os nossos pequenos sonhos de insegurança, nossas pequenas necessidades de ganhar a vida, de sermos reconhecidos, de conquistar prestígio, e nos colocar totalmente a serviço de auxiliar na execução deste plano maior que é amar mais (com o amor compreendido não no sentido de um sentimento mas como uma ação amorosa de aceitação do outro como legítimo outro) e trazer a alegria e a felicidade para todos.

É quando então presenciar algum sofrimento que está ao nosso alcance aliviar se torna insuportável e gera sempre alguma atitude no sentido de ajudar.

É quando tudo o que fazemos tem como único objetivo reduzir o sofrimento, ampliar a consciência e aumentar a luminosidade do ambiente à nossa volta.

E deixar crescer a confiança de que, agindo desta maneira as nossas necessidades materiais serão supridas adequadamente, sempre.

É como se o processo de iniciação fosse sem fim, continuando-se enquanto existe a vida, renovando-se em cada momento vivido com sinceridade, abrindo-se generosamente para os que seguem seu próprio coração.