A ARTE DE MANTER A PAZ

por Arnaldo Celso do Carmo
08/2004


Todos herdamos uma idéia muito enraizada na nossa cultura que diz que,
se dissermos a verdade, quase sempre estaremos machucando alguém e gerando conflitos.
Ser sincero é sinônimo de comprar brigas e fazer inimigos.
Comparamos a “lavar a roupa suja”. Dessa maneira,
aprendemos desde muito cedo a nos calar e tentar resolver nossas questões sozinhos,
o que reafirma e aprofunda o nosso sentimento de solidão.

A fonte dessa idéia destrutiva é a nossa incapacidade de reconhecer
o que realmente sentimos e queremos para nós.
Não sabemos quem somos nem quem queremos ser e
porisso vivemos apoiados em descrições vindas de fontes externas.

Fazemos um esforço enorme para seguir valores e realizar projetos de vida
impostos pelo meio social que muitas vezes se mantém sem base na realidade,
às vezes por séculos, simplesmente porque ninguém se dispõe a reexaminá-los e atualizá-los.

A consequência fatal desse conflito entre o que realmente se passa dentro de nós e
os preceitos externos que “devem” ser seguidos é o acúmulo de mágoas que,
ao atingirem um ponto crítico, não podem mais ser contidas e
transbordam de maneira incontrolável.
Aí então finalmente expressamos as “nossas verdades”, somos sinceros
e dizemos as palavras que sempre quisemos dizer.
Só que nessas situações elas vêm sempre carregadas de raiva e rancor.
E aí, claro, a briga e os inimigos são certos.

Esse cenário é tão comum que nos acostumamos com ele e
passamos a acreditar que é a única maneira de se dizer o que se pensa.
Associamos a idéia de ser verdadeiro com emoções desagradáveis e
situações onde perdemos o auto-controle e os ressentimentos se multiplicam.

Um não existe sem o outro. E, naturalmente, nenhum de nós deseja passar por isso.
Porisso nos calamos, sentimo-nos sós e preparamos o cenário para uma explosão futura.

No entanto, acredito que isso não precisa ser assim.

Baseado na minha própria experiência, percebi que os sentimentos
que acolho dentro de mim precedem as minhas atitudes e dão o tom emocional
que permeiam as minhas palavras.

Ou seja, ser sincero e dizer coisas que muitas vezes
sabemos não são o que os outros gostariam de ouvir
não precisa ser necessariamente feito num clima de mágoas e de forma agressiva.

Não! Isso é apenas uma escolha como outra qualquer.

Um má escolha, é verdade, a de permitir que nossas emoções surjam mecanicamente,
sem a participação da vontade.
Alguns de nós chegam a ter orgulho dessa atitude, julgando-a muito “espontânea”,
como se por detrás de uma reação desse tipo
não houvessem anos de treinamento intensivo de abafar e
conter nossos verdadeiros sentimentos.

Mas, assim como temos feito más escolhas, agora podemos fazer diferente.

Posso, se for capaz de perceber o momento da formação das emoções e
se realmente quiser, primeiro gerar a paz dentro de mim
.

Para que esse sentimento seja consequente e duradouro é
preciso que se apóie numa compreensão abrangente da vida,
capaz de distinguir o essencial do superficial e
dar valor apenas ao que realmente tem valor.
E então, imerso no carinho que flui dessa postura ancorada na paz,
dizer qualquer coisa que me pareça verdadeira.

Manter o coração em paz e, com alegria e doçura,
dizer o que penso verdadeiramente, seja o que for. É o que eu chamo de arte.

A raiz mais profunda dessa atitude, dessa arte, é a “compreensão abrangente da vida”
com a qual, em poucos instantes, vislumbro a real dimensão
das situações que me envolvem e, ciente do que vale cada gesto
ou cada fato deste mundo, sinto-me incapaz de levar
qualquer acontecimento excessivamente a sério.
Torno-me como uma criança, como disse Jesus.
Ou seja, não consigo mais valorizar nada que não seja essencial,
que não leve na direção correta da felicidade.
Tudo se transforma imediatamente em leveza, com um tom de brincadeira.

E as palavras e gestos saem de mim com doçura e firmeza e
não geram conflitos, principalmente dentro de mim.

O outro, que compartilha comigo da experiência,
também tende a não sentir o conflito, embora às vezes o sinta, é claro,
porque tem o direito de exercer seu livre arbítrio e fazer de conta que
tudo é importantíssimo e que estamos lutando o tempo todo
por nossas vidas reais numa batalha terrível.

Quando mantemos o estado de espírito correto, tudo isso soa muito engraçado.


Acho que porque é mesmo!

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